| Como
competir com
uma empresa imaginária?
O Eduardo conversa e de repente solta um glosariam
e nem pisca, como se a palavra fosse tão
conhecida quanto batatinha. Depois, em outras
conversas, a Sandra solta um glosado e o Walther,
um glosaram.
Se você costuma se preocupar com o destino
da sua declaração do Imposto de
Renda, talvez conheça o verbo glosar. Significa
desconsiderar uma parte das contas. É muito
usado por executivos do setor de energia elétrica,
como o Eduardo Mayer Fagundes (da AES Eletropaulo),
a Sandra Camelo dos Santos (da Chesf) e o Walther
Toledo Anconi (da CPFL). Quando um desses CIOs
faz investimentos em informática, sabe
que uma parte dos investimentos será glosada
pelos técnicos do órgão regulador,
a Aneel, com base nos números de uma empresa
imaginária — a empresa de referência.
É uma empresa criada e mantida no papel
pelos técnicos da Aneel, com a qual a empresa
real deve competir. Se a empresa de referência
vai gastar X com informática, mas o CIO
da empresa real acha essencial gastar X+Y, ora,
os técnicos da Aneel glosam o Y. O CIO
que se vire depois. Quando vier a hora de pedir
aumento de tarifas, não terá como
levar o Y em consideração. É
como se aquele Y nunca tivesse sido aplicado em
nada de bom.
Resumindo, o governo exige excelência dessas
empresas de energia elétrica, mas depois
desconsidera uma parte do que elas investem em
excelência.
Pensando bem... Todas essas concessionárias
de serviços públicos essenciais
funcionam num mundo à parte e incomum.
(Concessionárias, ou utilities, são
empresas de energia elétrica, de águas
e saneamento, de gás e de telecomunicações.)
Investir bem em informática já é
difícil em terras cor-de-rosa, se existe
alguma. Para o CIO na concessionária, o
quebra-cabeça é investir nesse mundo
fora dos eixos, em que existem até inimigos
imaginários.
Não compre de mim
Os clientes da Sabesp, por exemplo, pagam menos
por metro cúbico de água quando
consomem pouco, e pagam mais quando consomem mais.
É assim, ao contrário do resto do
mundo, para que todos economizem água.
“Nosso marketing tem de ser feito no estilo
por favor, não compre o meu produto”,
explica Maria Lúcia dos Santos Tiballi,
superintendente de marketing da Sabesp. O competidor
imaginário de referência obriga a
Eletropaulo a atender as ligações
do cliente (no call center) em menos de dois minutos
e a manter cem lojas na área de concessão.
De nada adianta contra-argumentar, dizer que os
serviços prestados pelos 900 funcionários
do call center são opção
melhor (para os clientes) que uma loja às
moscas. Também não adianta sugerir:
a equipe de manutenção dos 215 mil
transformadores bem que poderia prestar serviços
de manutenção aos clientes, já
que está na rua e entende do assunto, e
assim baixar o custo da manutenção.
A Aneel proíbe, como proíbe qualquer
coisa minimamente semelhante a privilégio
para poucos em detrimento de muitos.
Serviço de energia elétrica quase
sempre é o primeiro a chegar. “O
pessoal abre uma rua, constrói umas casas
e a primeira empresa que chamam é a Eletropaulo”,
diz Carlos Augusto Leite Brandão, o diretor
de coordenação empresarial. Para
as pessoas mais pobres, a conta de energia elétrica
às vezes é o único documento
que lhes permite, por exemplo, abrir um crediário.
Quando a infra-estrutura está disponível,
distribuidora deve atender toda a rua em questão,
mesmo que dê prejuízo. É a
mesma coisa com a Sabesp. Além de aconselhar
o cliente a evitar seu produto, deve instalar
estações de tratamento e encanamentos
mesmo nas cidades em que a receita não
vai cobrir o custo operacional. Água e
esgoto influem na saúde pública,
especialmente a saúde de crianças
Meses de descobertas
Assim, apesar dos clientes às pencas (7
milhões na Sabesp; é outra excentricidade
das concessionárias), uma parcela razoável
deles dá prejuízo. A única
solução é subsidiar os clientes
deficitários com os clientes lucrativos.
O problema de todas as concessionárias,
informa Fernando Menezes, superintendente de TI
da Sabesp, é que a receita média
por cliente vem caindo.
Por isso, neste momento elas todas já
investem ou planejam investimento para melhorar
bastante a gestão da operação,
e assim reduzir seu custo. Com operação
barata, perde-se menos dinheiro com o cliente
deficitário, e ganha-se mais dinheiro com
o cliente lucrativo, sobra mais dinheiro para
subsídios e lucros. A vontade de baixar
custos se manifesta nas concessionárias
de muitas maneiras: seu pessoal anda estudando
se amplia os mainframes ou se desiste deles, fazendo
reformas nos processos e na hierarquia, avaliando
e instalando módulos novos de ERP, reescrevendo
os sistemas de controle dos ativos em campo, instalando
sistemas de informações geográficas,
equipando vendedores e técnicos com computadores
de mão. A Comgás, por exemplo, pagava
impostos a mais por conta de ativos incorretamente
registrados, como veio a descobrir com a ajuda
da Accenture e de novos sistemas. Nesse trabalho
todo, o pessoal de informática tem papel
duplo. “Os novos sistemas não só
apóiam as mudanças”, diz Walther,
da CPFL, “como também forçam
as mudanças.” Para as elétricas,
as contas são ainda mais difíceis:
só vale a pena gastar com sistemas novos
se as economias compensam o valor glosado.
As concessionárias investem também
em autoconhecimento e em conhecimento sobre o
cliente, e por isso andam pagando por consultorias
e novos sistemas de CRM. Com a receita média
em queda, conhecer os clientes e administrar o
relacionamento comercial com eles vira prioridade.
Os meses mais recentes têm sido de descobertas.
Nenhuma delas vende o mesmo produto para todos
os clientes, apesar das aparências, como
começaram a perceber. Tantos jeitos diferentes
de entregar o gás são como produtos
diferentes. A variação vem por conta
do tipo de cliente: posto de gasolina, residência,
prédio, condomínio, usina; é
gás para mover o carro, cozinhar, resfriar
o ar, aquecer a piscina, produzir energia elétrica.
“Cada um de nossos clientes”, diz
Roberto Carneiro, superintendente de informática
da Comgás, “pode até usar
mais de uma aplicação.” Esse
conhecimento ajuda a fazer novas vendas, mas ajuda
também a reduzir o subsídio com
clientes deficitários, como aconteceu com
o pessoal da Bandeirante Energia: ficou mais fácil
negociar com o cliente para religar a energia
ou parcelar contas atrasadas.
E essas concessionárias, nascidas e criadas
no monopólio, começaram a perceber
a existência de... competidores. Os melhores
clientes da Sabesp (empresas) podem contratar
perfuradores de poços ou caminhões-pipa.
“Você vê isso nas ruas da cidade”,
diz Fernando sobre as ruas de São Paulo.
“O número de caminhões-pipa
aumentou.” A Comgás concorre com
fábricas de chuveiro elétrico. Até
as distribuidoras de energia elétrica concorrem
entre si, apesar dos milhares de quilômetros
de cabos de aço bem presos a milhões
de postes e torres. Se a distribuidora nº
1 conseguir um cliente na área da distribuidora
nº 2, a nº 2 é obrigada por lei
a cobrar um pedágio e interligar o cliente
à distribuidora nº 1. “Os que
consomem mais de 3 MWh são os alvos de
todos”, explica Carlos Augusto, da Eletropaulo.
A CPFL, por exemplo, perdeu três clientes.
Imagine o que é ter clientes deficitários,
que a empresa não pode de jeito nenhum
se negar a atender, e perder clientes lucrativos.
Quanto mais barata a operação, e
quanto mais informações a distribuidora
reúne sobre si mesma e sobre clientes,
mais difícil fica perder clientes para
o concorrente e mais fácil tirar clientes
dele
Anos de trabalho
Processos e sistemas de CRM ajudam também
a manter o aumentar o grau de satisfação
do cliente com a empresa. Na Bandeirante Energia,
informa Thomas Brull, diretor de relações
com investidores, caiu o número de reclamações.
É bom na hora de pedir aumento de tarifas
aos técnicos da Aneel. Quando o índice
de reclamações sobe, eles tiram
pontos da distribuidora e ela não consegue
todo o aumento de que precisa. Mas até
a Sabesp, a Comgás e a Telefônica,
que não estão sujeitas à
competição de uma empresa imaginária
de referência, buscam melhorar o grau de
satisfação dos clientes com a empresa.
É bom para os negócios. É
bom também para conseguir o apoio de políticos.
Todo dia, a Telefônica coleta 140 milhões
de registros de chamadas telefônicas (CDRs),
e com eles finalmente monta as 14 milhões
de contas que manda por mês aos clientes
de telefonia fixa. Para quem sabe pouca coisa
sobre os clientes, parece muito bom ter tanta
informação. Nem tanto. Recentemente,
a Telefônica mudou o jeito de remunerar
as empresas terceirizadas de atendimento telefônico
ao cliente. Em vez de pagá-las por ligação,
como vinha fazendo, paga por problema resolvido
na primeira ligação, não
importa quanto tempo dure essa primeira ligação.
Se o cliente ligar de novo por causa do mesmo
problema, a terceirizada não recebe um
centavo pela primeira ligação. O
tempo médio das ligações
aumentou bastante, o índice de problemas
resolvidos na primeira ligação também,
o grau de satisfação dos clientes
subiu 15%... e o custo total de atender os clientes
por telefone caiu! Manel Benazet, vice-presidente
de serviços comerciais e administrativos
da Telefônica, explica: com tantos clientes,
qualquer manejo de dados, qualquer novo processamento,
qualquer novo cruzamento dos dados — exige
muita tecnologia de apoio, é perigoso e
fica caro. Para que o sistema comercial da Sabesp
fique do jeito que seus executivos querem, “leva
mais uns dois anos”, informa Fernando.
Essa história toda está acontecendo
agora e demora a terminar. Os funcionários
dessas concessionárias têm tempo
para se acostumar com os novos jeitos de fazer
negócios. Nas medições mais
recentes, feitas com técnicas novas de
contabilidade, intangíveis (= idéias)
já respondem por 45% do valor de uma empresa
nas bolsas de valores. Mas todo executivo compete
com idéias, porque um competidor é
isso mesmo, um outro executivo e suas idéias
distintas. Pensando bem... Não é
tão esquisito assim enfrentar um competidor
imaginário.
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